Tô longe, mas não quero fascismo no Brasil

demokratie-1536626_1920Outro dia uma senhora brasileira que vive no Panamá há quase 30 anos me perguntou o porquê de eu estar visivelmente abatida. Respondi que há dias me sentia muito ansiosa e preocupada com as eleições no Brasil e o que elas poderiam acarretar para o povo. “Mas você tá se preocupando à toa: nem lá você está, para que vai esquentar a cabeça?”, perguntou ela, que é eleitora do Coiso, ecoando o que muito brasileiro que mora no exterior anda falando por aí.

Com paciência e calma, expliquei a ela que mesmo que eu não esteja lá, sempre vou querer o melhor para o país onde passei a maior parte da minha vida, o meu Brasil. Não por esse nacionalismo vazio, da turma de camisa amarela, que só lembra que é brasileiro na Copa ou na hora de armar feijoada ou churrasco com os amigos.

Pessoas que infelizmente querem o país só para eles, não para todos. Mas porque lá é minha pátria, onde cresci, me tornei adulta, batalhei pelas coisas que eu acredito e, principalmente, porque é onde estão as pessoas que eu mais amo (a maior parte da minha família e dos meus amigos).

Por pior que esteja a situação econômico-social agora, o Brasil sempre será a minha casa.  Sinto orgulho da música, da literatura, do cinema, da história (de alguns pontos tenho muita vergonha e tristeza, é verdade, como da ditadura), das belezas naturais (e algumas artificiais e imperfeitas também, como a cidade de São Paulo, com caos e tudo).

E sim, eu posso a qualquer momento ter que ou querer voltar a viver no Brasil. Então vou torcer contra, apoiar alguém que é contra o mínimo de humanidade “só porque eu estou bem longe”? Nunca.

 

Acendeu o pavio e saiu correndo

Se se confirmar o pior dos cenários possíveis e aquele candidato execrável que emergiu do lodo da sequência formada pelas manifestações de julho de 2013, o governo ruim e o golpe contra Dilma Rousseff, a parcialidade da Lava-jato e seu fruto mais conhecido, o imenso ódio insuflado (apenas) ao PT, estamos todos fritos. Todos, sem distinção.

Inclusive, as várias pessoas que, depois de apoiar o impeachment por puro ódio e juízos de valor questionáveis (o que é crime para um também deve ser para o outro, ou não?), fugiram para Portugal, Espanha e tantos outros países da Europa (Alemanha, Holanda) por conta da “ditadura de esquerda que estava tomando conta do Brasil”.

Lá chegando, se depararam com países com governos socialistas, como Portugal. Ficaram espantados com os impostos mais altos para os ricos e menores para os pobres. Com as escolas de boa qualidade para os filhos, de graça, e a consciência política das pessoas de todas as classes sociais.

Esta gente não perdia um domingo de passeata na Paulista, ajudou a acender o pavio da bomba e, na hora em que a coisa explodiu, já estava bem longe. Agora estão todos lá quietinhos, aproveitando o estado de bem-estar e justiça social que tanto combateram em seu próprio país, as “bolsas-vagabundo”, “os lixos de cotistas”, e por aí vai. É hipocrisia que chama?

Tenho visto muito brasileirinho imigrante, expatriado ou o que o valha em vários países reclamando “aim, mas vocês só falam de política”, ou “não quero nem saber do que está acontecendo no Brasil”. Compatriota que tá ilegal na Europa defendendo o fechamento das fronteiras aos refugiados sírios ou mesmo aos vizinhos venezuelanos (o Brasil não tá recebendo nem 5% dos migrantes de lá, detalhe), ou nos Estados Unidos torcendo para a construção do tal muro do Trump.

E claro, muita gente declarando voto num político medíocre que representa uma ameaça real à democracia (que muitos estão nem aí para o que isso significa de verdade, de tanto ódio e “leitura” de fake news. Muita gente que se diz cristão e prega a morte dos “inimigos”, inclusive. A falha de interpretação de texto é tão grande que nem a Bíblia eles entenderam, o que é muito triste.

E ainda tem o expatriado, esta categoria na qual eu por acaso total me incluo: só vim morar aqui no Panamá por conta do trabalho do meu marido, porque jamais escolheria viver num país tão conservador e hipócrita como o Brasil. Tem o lado bom, tem uma certa tranquilidade sem dúvida, mas não é este o tema do texto.

O fato é que aqui o que mais tem é brasileiro que só por morar em apartamento bom e ter uma SUV na garagem (em países latino-americanos tão desiguais quanto o nosso, como México, Argentina, Peru, Equador e Colômbia é a mesma coisa) é contra a taxação das grandes fortunas (como ele se tivesse uma), odeia a esquerda, é a favor do “mercado” e do voto no Coiso, quem na opinião dele vai “acabar com tudo isso que tá aí”.

E vai acabar, mesmo. Com a liberdade de expressão (no “discurso pós-votação” do senhor cujo nome começa com J, que mais parecia um comunicado do Estado Islâmico de tão aterrador, ele falava em “acabar com todos os ativismos”); o direito de ir e vir e até o voto, que ele mesmo já demonstrou desprezar em tantas oportunidades.

Vai acabar com os textões de Facebook falando de qualquer coisa contrária ao governo. Pode não vir um golpe militar como o de 64, pode não haver tanques na rua. Mas já está em curso um processo antidemocrático há tempos, caminhando sorrateiramente enquanto todos olham para o outro lado, num transe de ódio e desinformação. Tudo isso tendo-se à frente um governo ilegítimo e instituições totalmente adoentadas, como o judiciário que se politizou de maneira absurda.

Muita gente não quer ver, faz vista grossa ou realmente não se importa, mas a democracia no Brasil, mesmo com gente dizendo que é o regime político que mais funciona, não existe mais como a que havíamos conhecido nos anos 80.

Que muita gente não tenha lembranças muito vívidas do que foram os anos de chumbo por ter memória seletiva ou formação escolar sofrível, tudo bem. Mas assusta ver que milhões de pessoas que têm menos de 25 anos, ou seja, não passaram por este período, tenham como candidato a caixa de comentários de qualquer site brasileiro materializada em forma de um político desumano, desonesto, misógino, racista, homofóbico e, principalmente, incompetente.

Em 27 anos no Congresso, aprovou dois projetos e foi contra vários que beneficiavam muita gente, como a PEC das Domésticas, que deu a esta categoria todos os direitas trabalhistas que qualquer categoria profissional merece. Só quem ainda não aceitou a Lei Áurea, que libertou os escravos mais tarde que qualquer outro país das Américas (1888) pode pensar diferente, mas tenha certeza que as pessoas que apoiam este homem pensam exatamente como ele. Que há ainda a casa grande e a senzala.

O mais aterrador é saber que podemos ser governados por um cara sem ideias factíveis para resolver os problemas do Brasil e com um programa de governo pífio, que certamente nenhum dos seus eleitores se deu ao trabalho de ler, porque “cansaram de tudo”.

Muitas de suas ideias são um mistério, porque ele simplesmente fugiu de qualquer forma de debates entre outros candidatos, mesmo depois da recuperação da facada que tomou em campanha (que em de longe defendo, foi um horror). Não pode ir a debate, mas bate cartão nos programas da TV Record e faz live no Facebook o tempo todo.

Ainda mais assustador é ver que esta gente que vota com o fígado e não com a cabeça agora está causando uma onda de pânico no Brasil. Coiso, responsável por “jogar as pessoas às hienas” por meio de uma estratégia de fake news apoiada por Steve Bannon (o escroque que cuidou da estratégia digital nojenta que elegeu Trump) deu uma de louco ontem e disse que não tem “como controlar isso”.

 

A tempestade de merda virá para todos, inclusive para quem se acha protegido

Não  fiz e nem farei campanha para nenhum candidato ainda (mas agora é Haddad, alguém que considero muito maior que o próprio PT), mas todo mundo que me conhece melhor sabe que eu sou de esquerda desde que nasci.

Cresci numa família em que aprendemos, desde pequenos que todos somos iguais e temos que batalhar para que cada pessoa tenha os mesmos direitos que os mais privilegiados, batalhando a vida toda e apoiando aos mais necessitados. A respeitar e conviver com o diferente. Pode ser uma visão de mundo idílica, mas é humana e necessária. Nunca fomos estimulados a pensar apenas no quadradinho de conforto da nossa família.

Muita gente se afastou ou não gosta de mim por eu me posicionar e pensar como penso. Eu sinceramente não me importo, porque isso se deu também em relação a mim: quero distância de quem defenda ideias desumanas como as encampadas e esbravejadas pelo atual líder da campanha eleitoral para presidente.

Sinto saudades de quando eu estava na universidade, convivia com gente de diversas ideologias e todo mundo respeitava os pontos de vista alheios, mesmo em meio a debates muitas vezes acalorados. Acabava a discussão, todo mundo ia tomar cerveja e seguia a vida e a amizade (alguns dos meus colegas de Unesp são meus amigos até hoje). Hoje infelizmente isso acabou e a capacidade de diálogo se tornou uma breve sombra de um passado nem tão distante assim.

Independente do meu ou do seu lado, só queria lembrar uma coisa a quem nasceu e passou a maior parte da vida naquele país que já foi grande, mas hoje anda para trás, empurrado por uma maré de ignorância nunca vista: a eleição desse senhor não é o fim do caos, mas sim o aprofundamento dele. Todas as vezes em que o Brasil votou em salvadores da pátria deu merda.

Se você está indeciso e não faz parte desta turma que eu citei aí em cima, não desperdice seu voto com esse ser. Pense, leia (de fontes confiáveis e não “de um post de Facebook” ou de “corrente do Whats”, que provalvemente serão notícias falsas), pesquise antes de tomar esta decisão, por mais que você queira “todos os petralhas na cadeia”. Aqui ao longo do meu texto coloquei vários links de fontes confiáveis para quem quiser se informar mais sobre alguns pontos citados.

Se você já tem sua ideia concretizada, me ignore, me xingue, não precisamos ser amigos nem conversar. Por que se o caldo entornar não serão presas apenas algumas pessoas sem provas concretas e julgamento digno. Isso poderá acontecer com qualquer um, inclusive seus pais, seus amigos ou você mesmo, quando estiver de férias por lá.

E lembre-se que você não está lá no Brasil, pode estar pouco se importando com o país ou já ter adotado outra “pátria”, mas alguém por quem você se importa está. Recorda-se que os manifestantes a favor da queda de Dilma diziam (e seguem insistindo nisso) que nosso país não poderia se tornar uma Venezuela? A coisa pode ser bem mais feia: podemos nos tornar a versão latino-americana das Filipinas, onde um presidente fascista distribui armas e à população e está fazendo isso aqui.

No player: País Tropical (Wilson Simonal)

 

 

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O menos continua sendo o mais

Muita gente na América Latina afora ainda acompanha o concurso de Miss Universo, que para mim nada mais é que uma lembrança cafona da infância nos anos 80 (meio reduntante falar em cafonice nesta época). Mas aqui a tal competição é um super evento, e no final do ano passado, por um misto de curiosidade e falta do que fazer, fui sondar quem era a candidata panamenha, já que os locais só falavam disso.

Comentários estéticos à parte (essas moças são fabricadas em série? E esses narizes?), algum site de jornal local a “Señorita Panamá” contava que tinha levado uma bagagem de dez volumes “apenas em roupas e acessórios” para Las Vegas, onde aconteceu a disputa. Na hora me lembrei da quantidade de malas que trouxemos quando nos mudamos para cá, há um ano e sete meses:  sete, além das nossas mochilas individuais.

Esta história aí de cima é uma metáfora do lifestyle panamenho (não de todo mundo que é daqui, que fique claro), e o de muitos brasileiros e outros tantos estrangeiros que vivem neste país. O nível local de consumismo e devoção a tudo que é norte-americano é altíssimo, o que pra mim foi chocante num primeiro momento. Hoje acho engraçado.

Lembro que quando estávamos para vir para cá, uma amiga do meu marido comentou que teríamos “qualidade de vida” vivendo no Panamá. Realmente aqui não há problemas com violência e, para ele, poder ir e voltar do trabalho em 10 minutos ao invés das 2h de São Paulo é ótimo. Só que viver numa cidade onde existe um minishopping a cada duas quadras e centenas de centros comerciais gigantes não é a minha imagem de lugar ideal para se viver.

A gente muda de país, mas não de visão de mundo

Não sou o tipo de pessoa que que vai às compras toda semana: só o faço quando realmente preciso. Prefiro peças de boa qualidade (compro de preferência quando elas estão em promoção) e que durem muito a encher meu armário de “brusinhas” da Forever 21.

Não que nunca aconteça de estar um dia na rua, ver alguma coisa que eu goste e gastar alguns dinheiros nela “porque sim”, mas isso é bem raro. Gosto de comprar em lojas de segunda mão sempre que possível, e prefiro reformar uma roupa, uma bolsa ou um  casaco a comprar outro novo.

Pena que no Panamá esse conceito de second hand shops é deturpado: como tudo aqui tem essa pegada business e o objetivo de render muita grana, algumas pessoas abrem “lojas vintage” apenas pelo dinheiro, ignorando totalmente que a aposta em um estilo de vida mais sustentável ou num ciclo de consumo mais virtuoso também pode ser um ativo de alta rentabilidade.

Valorizar esse conceitos também atrairia clientes mais conscientes, ajudaria a informar outros sobre estas possibilidades de dar novo uso a objetos em excelente estado e, consequentemente, geraria tanta ou mais renda. Mas aqui infelizmente ninguém tá preocupado com isso.

Outro dia fui a uma das poucas lojas deste tipo que há por aqui, comprei uma bolsa (que irei usar por uns bons anos), mas nunca mais voltarei lá. A maior parte das peças era cara, cerca de 70% do valor da nova. Bem diferente de lojas de segunda mão e brechós na Europa ou em São Paulo.

Poucos dias depois, vi uma postagem da dona do tal lugar numa rede social – ela tem alguns empreendimentos pela cidade – dizendo que “além de peças exclusivas, ela vendia também outras para pessoas que não têm acesso às grandes marcas”, ou, trocando em miúdos, “coisas de segunda mão para os pobrinhos que oh, não podem pagar 20 mil USD numa bolsa Birkin”.

Achei o comentário dela simplista, deselegante e desconectado de uma realidade que infelizmente muita gente em toda América Latina e nos Estados Unidos desconhece. Reutilizar é tão fashion quanto qualquer peça da nova coleção da Balenciaga.

Este meu “modo de consumo” – e que de forma alguma estou dizendo que é o correto, mas só que é que eu adotei pra minha vida – vem de muito tempo, e surgiu num primeiro momento de forma inconscientemente, mais tarde apaixonadamente. Para ser mais precisa, isso começou quando eu era adolescente e compartilhava o meu armário com a minha irmã.

Tínhamos poucas gavetas para cada uma de nós, e a fatia do orçamento familiar destinado a este tipo de gasto era tão restrita quanto o nosso pequeno quarto. Quem cresceu em família de classe média nos anos 90 em qualquer lugar do mundo sabe bem do que eu estou falando.

Até hoje não sei como era possível pagar escola particular de três filhos, condomínio, comida, água, luz, telefone tantas outras faturas sem enlouquecer. Nossos pais faziam isso como? Até hoje me assombro.

Na época, eu até ficava chateada por não poder exibir um monte de sapatos London Fog (que eram febre nos anos 90), dezenas de pares de All-Stars coloridos, camisetas da Pakalolo e jeans da Zoomp, como algumas das minhas amigas da escola tinham. Eu tinha tudo isso, mas em pouquíssima quantidade.

Tudo o que meus pais compravam para mim e meus irmãos era usado até acabar (não sem antes de ser reformado, trocado o zíper ou até remendado) para aí comprarmos outros. Hoje agradeço à minha mãe por ter me ensinado, entre tantas coisas que moldaram o meu caráter, a guardar o dinheiro para o que é realmente importante, o estudo, as viagens e as emergências.

Desapego total existe?

Por tudo isso, mudar para cá não foi traumático em termos de me desfazer de coisas: eu nunca fui apegada a elas, e o meu marido menos ainda. Não tínhamos móveis de valor sentimental, como aquela penteadeira da nona, que passou de geração a geração.

Quando foi necessário, invocamos nossa Marie Kondo interior e encaramos tudo o que tínhamos com bastante maturidade e quase nenhuma dor. O que não viria para cá foi vendido ou doado.

A dor só não foi totalmente inexistente na hora de olhar para o único patrimônio material que acumulei ao longo da vida, os meus livros: metade da minha biblioteca, amealhada durante quase 30 anos (eu tinha até os exigidos pelos vestibulares da Unicamp, da Unesp e da USP em 1993, quando fiz o exame) ficou na casa da minha mãe, em São Paulo.

Do que sobrou, uma parte foi doada para um sebo perto da minha ex-casa, e o resto veio dividido em cada uma das nossas malas. Hoje em dia venho comprando menos papel e dando preferência ao Kindle. Como é difícil achar coisas em espanhol na Amazon, de vez em quando eu ainda compro livros físicos. Nem tudo é perfeito nesta busca por uma vida menos entulhada.

Não compramos móveis aqui no Panamá porque o apartamento no qual moramos é mobiliado (os móveis não são 100% a nossa cara, mas também não horrendos, então deu para dar um jeito). Só adquirimos uma estante para comportar os parcos volumes que vieram da biblioteca brasileira.

 

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Tirando a estante, nesta parede estão algumas das poucas coisas que trouxemos do Brasil para o Panamá: quadros, livros e pouquíssimos objetos de decoração.

 

Trouxemos alguns objetos decorativos, algumas lembranças de viagens e quadros, só o que cabia nas malas. Dos artigos de cozinha não houve como fugir, nem das roupas de cama e mesa e também das pequenas coisas que faltavam aqui e acolá, mas perto das cifras pagas por muita gente que se mudou para cá no mesmo período que a gente, nossos gastos foram ridiculamente baixos.

 

A carrocraria, esta bitch

Também optamos por não comprar carro. Como somos dois e ele trabalha a três quadras de casa, eu me desloco de Uber e Cabify quando preciso sair daqui (a gente mora num bairro mais afastado do centro, tipo Alphaville, pra quem está em São Paulo, ou a Barra para quem é do Rio), porque não dirijo aqui nem por decreto.

Os motoristas locais não primam pela educação ao trânsito, as regras de circulação são bastante fluidas (seguem a lei do mais forte ou mais cara de pau, pra ser mais clara) e, além disso, no Brasil eu já não me aventurava ao volante há anos, por me estressar demais no trânsito. Usava o combo Uber/Cabify-metrô-ônibus.

Transporte público é meio complicado aqui. Os ônibus não têm horários fixos e param de funcionar cedo. O metrô tem apenas uma linha que até é decente, mas não chega a atender a nem um terço da cidade.

Se você comenta com outro expatriado ou local que usou o ônibus para ir a algum lugar, a reação imediata do seu interlocutor é te olhar com uma mescla de pena (“tadinha, deve estar precisando de dinheiro”) ou de uma surpresa não propriamente boa (“pessoa estranha essa aí”).

Um clássico latino-americano: achar que quem não tem carro é um coitado, que quem usa transporte público é pobre (mas é chique se você o fizer nas férias na Europa ou em Nova York), e por aí vai.

Além dos aplicativos, também usamos bikes para ir ao supermercado (raramente vimos outras além das nossas no estacionamento) e outro dia experimentamos ir a um cinema que fica num dos milhares de malls (esses shoppinhos bem norte-americanos, que o povo daqui e o João Dória adoram) com elas.

No geral há que se tomar muito cuidado para pedalar aqui  – neste dia do filme, fomos pela calçada – usar luzes, capacete e o que for possível para se fazer visível, porque como comentei antes, os motoristas panamenhos são selvagens. Ciclista bom é ciclista que não os atrapalhe, senão, dá-lhe buzinas, xingamentos e quase atropelamentos.

Aqui sempre somos vistos como estranhos, raros ou fora da curva. Afinal, que brasileiro quer sai do Brasil expatriado pela empresa, com acesso a alguns benefícios (o que é uma grande vantagem, se nos compararmos com pessoas que migram por necessidade, como tantos centro-americanos, venezuelanos e, agora, nossos compatriotas) e prefere ter uma vida ainda mais simples do que a que levava em seu país de origem?

Que brasileirinho não quer ganhar em dólar (o que não é nenhuma vantagem, já que as contas também são pagas nesta moeda e o custo de vida aqui é bem alto)? Quem não gostaria de ter “vida top” ou “de patrão”, ainda mais num país no qual existem centenas de shoppões e shoppinhos com milhares de coisas baratas à mão, além de carrões (o povo daqui ama SUV’s, esses brutamontes sobre rodas) e combustível a preços acessíveis?

Que maluco se preocuparia com o “ser”, quando o “ter” é muito melhor visto pelos outros? A gente. E para completar o “kit esquisitão para o padrão local”, ainda optamos por não ter filhos. Mas este é um tema que eu deixo para outro momento, porque também é um foco de tensão no meu convívio com as pessoas por aqui.

Não condeno quem tenha abraçado totalmente o estilo de vida local, ou se sinta super à vontade vivendo numa cidade consumista, com poucas opções culturais, um dos trânsitos mais inacreditáveis que já vi na vida e um custo de vida tão alto quanto o das metrópoles mais caras do mundo. Eu não mudei quando vim morar aqui, nem mudarei se for para um outro país. Adaptar-se é uma coisa, mudar de mentalidade e de valores outra.

No player: Over and over (Hot Chip)

Tia babona, sem filtro

“Maternidade” real tornou-se uma das expressões e temas do ano (sem contar as hashtags no Instagram). Muitas mulheres deixaram de lado a tendência de mostrar só o lado fofinho de ser mãe para contar também os milhares de perrengues que até quem não tem filhos conhece.

Sou tia de duas criaturinhas e definitivamente não posso (e nem quero) sentir as dores e as delícias de quem gerou e educa seus rebentos. Não posso julgar a ninguém, mas sei nas últimas semanas minha condição de “tia à distância” me fez repensar o quanto eu nada sei (e pensava saber) sobre conviver com crianças.

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A principal é que, pra minha decepção, eu não vou ser a tia que eu queria ser. Não terei a oportunidade de poder ficar sempre com eles quando os pais quiserem sair ou viajar sozinhos, nem mesmo levá-los ao parquinho, este tipo de coisa que adoraria fazer com Amélie (que mora na Holanda) e Benjamin (no Brasil), devido à distância geográfica.

Pelo menos agora que são ainda muito pequenos (ela tem 3, ele 2 anos), eu ainda sou uma pessoa que eles vêem algumas vezes, mas ainda não entendem quem sou e nem parte da família. Eles ainda me estranham, não se sentem totalmente seguros ou à vontade estando apenas comigo. Quem sabe quando eles cresçam mais isso mude um pouco, vai saber.

A segunda é que só há pouco mais de dois meses, depois de estar 21 dias na casa da minha irmã, entendi na prática o quanto é exigente ser mãe. Crianças ficam cansados, querem atenção, precisam ir ao banheiro e comer quando querem ou necessitam. Por mais que se fale com eles de igual pra igual e tenha-se uma paciência infinita, na hora da birra a tia desavisada provavelmente não vai saber lidar com isso, e vai entrar em desespero.

A lindeza e a fofura existem, claro. Impossível não se desmanchar com aquela coisinha que você ama tanto (e que parece tanto sua irmã ou irmão) correndo pra lá e pra cá. Mas essas pessoas em miniatura também ficam bravas, gritam, esperneiam e ficam contrariadas, o que não quer dizer nada. Só que são humanas.

Mas nem todas estas nuances ficam muito claras para alguém que não convive com muitos pequenos, e tampouco conhece de perto a rotina dos próprios sobrinhos. Ainda mais com essa turminha bi ou trilíngue, como é o caso da minha sobrinha, que fala mais holandês, mas entende o português e o inglês. O lost in translation é enome.

Voltei da Holanda refletindo no quanto idealizei que o meu papel de tia poderia ser definitivo na infância dos meus sobrinhos. Erroneamente, julguei que poderia participar, ajudar ou mesmo compartilhar dificuldades e alegrias com eles e os pais deles. E, principalmente, como sou tola ao encher a minha timelime do Instagram de fotos destas duas pessoinhas, acreditando que isso poderia me tornar mais próxima deles. Pode ser nada mais que um placebo para a saudade enorme que sinto deles

Aqui do meu atual canto no meio da América Central, o que posso fazer é estar disponível a eles, visitá-los sempre que o saldo de milhas ou da conta bancária permitir, mas sem criar expectativas de ser querida de volta. Nem de ser inesquecível, admirável ou necessária. Nem as mães e pais conseguem isso sempre, quem dirá os tios? Sigo sendo uma tia amorosa e apaixonada, mas cada vez mais pé no chão.

No player: Pass the dutchie (Musical Youth)

Lugar de conversa não é no cinema

Na semana passada terminou a sétima edição do International Festival Film Panamá (IFF Panamá). As projeções acontecem na capital, em salas de um dos maiores shoppings (ou malls, como preferem os locais e a elite paulistana), dois teatros e uma área à beira mar, esta última com sessões gratuitas. Trata-se de um festival pequeno tanto em duração quanto em número de títulos exibidos (6 dias, 74 filmes), com uma programação razoável, que quer se firmar como um grande evento centro-americano do audiovisual. Mas como tudo relacionado à cultura aqui, ainda precisa de muitos ajustes, principalmente na questão de formação de público.

Foi a minha segunda vez no IFF Panamá, que para mim é uma excelente oportunidade de ver um pouco do cinema latino-americano que nunca chegava no Brasil (neste ano, dos 15 filmes que vi, 6 eram falados em espanhol e 1 em português, o interessante A Fábrica de Nada, do lisboeta Pedro Pinho). Também é o único momento do ano para conferir na telona alguns ganhadores dos grandes festivais, que jamais serão exibidos nas salas locais, ou obras de diretores dos quais gosto muito e os quais acompanho a obra, como o japonês Hirokazu Kore-eda, que teve seu  The Third Murder  exibido neste ano.

O orçamento de marketing do IFF é colossal e o número de patrocinadores chama a atenção – entre eles está a Copa, a maior companhia aérea da América Central. Para se ter uma ideia, antes de cada filme há uma vinheta de agradecimento aos apoiadores que dura uns 3 minutos. Nos dias que antecedem e durante o evento há displays e propaganda online em qualquer lugar onde você esteja, andando na cidade ou navegando na web. Nada contra festivais riquíssimos e com uma verba publicitária infinita, algo muito diferente de muitos outros ao redor do mundo que batalham para seguir existindo.

O que me chama a atenção no caso do festival panamenho é sobretudo a atmosfera exagerada, pomposa, com tapetes vermelhos e roupas de gala nas sessões de abertura e encerramento. A cobertura da imprensa é absurda, ufanista e nada isenta, como quase tudo o que se relaciona a feitos do país, como a ida da seleção panamenha à Copa do Mundo pela primeira vez. As críticas dos filmes são sofríveis. Jamais havia visto nada parecido nos maiores festivais que frequentei e que conheço melhor, como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o Festival do Rio e o bonaerense Buenos Aires International Festival of Independent Cinema (Bafici).

O IFF Panamá um evento que na forma quer emular uma mescla do canadense Toronto International Film Festival (TIFF) com os Oscars (que é só uma premiação), ao invés de se inspirar em outros tradicionais festivais latino-americanos, como o Festival Internacional de Cine de Mar del Plata ou mesmo o Festival de Cinema de Gramado. Mesmo com uma programação agradável, no IFF Panamá cinema e “taquilla” (aqui não usada como o equivalente espanhol para “bilheteria”, mas como uma expressão local para “chamar a atenção”) disputam o protagonismo.

Neste quase um ano e meio em que moro aqui, notei que esta é uma característica local, de querer fazer tudo grande, exagerado e muito, muito chamativo. E o IFF Panamá é assim. Muita gente se monta para ir às sessões, do salto à maquiagem pesada e os modelitos cheios de babados. As pessoas tiram selfies dentro das salas das sedes, em frente aos cartazes, na bilheteria e até nos banheiros. Eu sei que fazer selfie é um pecadilho que todo mundo comete, até eu, que não gosto nada disso, mas faço e depois me sinto ridícula. Mas mesmo assim o clima é bem diferente do da Mostra, por exemplo, que frequentei por mais de 20 anos. Por aqui há a simpatia dos monitores, todos jovens e superprontos a ajudar, mas mesmo assim a atmosfera é bem, digamos, pretensiosa e cafona.

Entendo que esse é o estilo de ser do Panamá, e que o país não tenha tradição cinematográfica, para além de existir um esforço genuíno por parte dos membros desta indústria em criá-la, mantê-la e referendá-la. Detalhe: aqui não existe um Ministério da Cultura (MinC no Brasil), e o cinema está abaixo do Ministério de Indústria e Comércio. Do jeito que vão as políticas culturais no governo Temer, dá um enorme pesar falar do que andam fazendo com o MinC. Aqui há um novo fundo de fomento a novas produções, que tem ajudado alguns cineastas locais. Parece promissor, vamos acompanhar.

É sabido que o que forma o repertório cultural de um povo é, mais que tudo, ter acesso a diversas formas de arte desde a infância, em casa e na escola, e que faltam políticas públicas em toda a América Latina para isso. Saindo da bolha classe-média-intelectual-que-estudou-em-universidade-pública em que cresci e sigo vivendo, sei que uma criança que tem a chance de ter três refeições por dia no nosso pseudo-continente já está em vantagem. Aquela que pode ter a companhia do pai ou da mãe para ler-lhe um livro antes de dormir, mesmo depois dele, dela ou ambos terem trabalhado 8 horas e voltarem para casa acabados faz parte da minoria das minorias.

A grande questão surge quando sobra dinheiro, mas a educação é destinada apenas para a formação de consumidores, e não de cidadãos, como aconteceu em grande parte da América Latina e do mundo ocidental atual. Quando se ensina para os pequenos que o pai deles ganha mais ou tem um carro melhor que o do vizinho, e que isso é super importante. É o que tem um pessoal fazendo por aí, certamente reproduzindo o que recebeu em casa. Gente que só valoriza o que se pode ostentar ou consumir sem pensar, e a cultura aqui no Panamá (não apenas aqui, que fique claro) é usada para este patético fim. Para tirar foto e postar nas redes sociais, não importa o quanto você apreciou ou aprendeu com a aquilo.

 

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O Teatro Balboa, uma das sedes do IFF Panamá.

 

Não é lugar para cinéfilos

Deve haver gente que gosta e entende de cinema aqui, que busca ver coisas além de Hollywood. Mas o que rouba muito do meu prazer de ver um filme no IFF Panamá ou numa sala qualquer aqui é a atitude, ou sendo mais explícita, a falta de educação – educação básica, mesmo – de um público, que não faz comentários ao pé do ouvido, mas bate altos papos durante TODO o filme. É irritante e grosseiro. Nunca passei por isso na Mostra ou no Festival do Rio, onde os faladores tomam bronca e, envergonhados, se calam (na maioria das vezes, claro. Sempre tem os malas).

Trocando em miúdos, o IFF Panamá se pretende um festival de cinema representativo, mas atrai além deste pequeníssimo pessoal que quer conhecer diferentes narrativas cinematográficas, uma maioria de público que pouco está interessado nisso. O povo das selfies. Aquele casal que está no shopping e, por acaso vê que está acontecendo um festival e se mete sem querer num drama russo, por exemplo. Isso não seria um problema se a tal dupla entrasse na sala e tentasse compreender o filme em silêncio, ou saísse da sala sem ruído, mas não é o que acontece. O festival não é um evento para cinéfilos que ainda acreditam que a sala escura é um espaço sagrado, onde o silêncio e a parcimônia são ouro, como essa escriba aqui.

Tá que muita gente pense assim, mas discordo que cinema seja apenas sinônimo de diversão. Que é um ambiente feito apenas para comer e beber um combo gigante de Coca-Cola e pipoca cheia de manteiga, dar risada e fazer piadinhas. A meu ver você pode se divertir vendo aquilo ali caladinho, na sua, comendo sem fazer sons que possam incomodar o outro, seja durante uma sequência dos Transformers ou uma película de roteiro intrincadíssimo falada em persa.

A maior parte do público do IFF Panamá comenta e discute o que vai acontecer na cena seguinte, além de rir de coisas que absolutamente não têm graça (no filme do Kore-eda uma turma se matava de rir a cada fala de um dos personagens coadjuvantes, e se tratava de um drama tristíssimo). Já vi isso acontecer em outros lugares do mundo, mas não era a maioria das pessoas presentes numa sessão de cinema que gargalhavam em situações tristes. Bizarro.

Mas o meu pote da indignação foi completado com a quantidade de pessoas que além de conversar livremente, atende o celular, mexe no Whatsapp com a tela branca virada para a sua cara, impedindo-lhe de ver o que está na tela grande e, desgraça das desgraças, come como se estivesse jogado no sofá da sua própria sala, para ao final largar todo aquele lixo no chão (sic). Pessoas que não têm o menor respeito pelo coletivo. Não se trata de ser intolerante com as diferenças culturais. Eu sou um ser bem compreensivo neste ponto, mas não engulo gente grosseira e mal-educada no cinema. Em outros ambientes eu relevo, respiro fundo e ignoro, por mais que às vezes isso me custe ou até doa.

Estive numa sessão em que um grupo de senhoras, aparentemente da classe alta local e que tiveram acesso a boas escolas, matracaram as quase 2h do alemão Into the Fade, de Fatih Akim (do qual gostei, apesar da minha garganta ter secado de tanto fazer “Shhhhh” e ter me irritado muito). Em outra, do singelo Visages Villages de Agnès Vardá e J.R, outro grupo de mulheres elegantes sentado próximo a mim apontava para a tela: “Esto es en Provence? Es un campo de lavanda? “Mira, Maria, qué ojos lindos tiene este niño!”. Pulei para umas três filas de distância delas, mas o tititi continuava geral. Raridade é gente que não fala durante a sessão. Nós somos os esquisitos, os que ficam quietos apenas apreciando a história que se desenrola à sua frente. Já estou acostumada a ser a “rara” no Panamá.

Neste ponto Panamá e Brasil (e tantos outros que rendem centenas de textos) são extremamente parecidos. Ter estudado em colégio internacional e feito faculdade nos Estados Unidos não garantiu à elite panamenha (e nem à paulistana ou brasileira de forma geral) um grau mínimo de cortesia no trato com o alheio. Haver pago pelo ingresso não lhe garante o direito de fazer o que bem entender seja onde seja, meu amigo. Respeitar o lugar do outro, que pagou o mesmo valor e não quer ouvir conversa fiada ou barulho de gente mastigando durante duas horas é o mínimo que se pede de alguém que quer viver uma experiência coletiva.

Acho muito louvável que o IFF Panamá tenha programas de formação de público para os jovens, e para quem se interesse por cinema de verdade. No entanto, as dores de crescimento cultural que vão ser sentidas por aqui terão de ser mais profundas. Num país onde o “eu paguei, eu posso” (parece algo muito familiar, não?) é que dá as cartas, onde cada um só olha para o próprio rabo e ignora o dos outros, ficar quietinho durante um tempo numa sala escura pode ser um grande exercício de civilidade. E isso não tem verba bilionária de publicidade que compre.

No player: Damage Goods (Gang of Four)

 

 

 

 

 

 

 

 

Tão perto, tão longe

A música une, a língua separa: já perdi a conta das horas faladas e das linhas escritas (e as de tantos outros pesquisadores e curiosos sobre o mesmo tema) para tentar dissertar sobre o quanto nós, brasileiros, não somos tão latino-americanos assim. A barreira linguística define quase tudo, mas a proximidade física também. É muito mais fácil um chileno ter simpatia ou se interessar pela cultura brasileira que um panamenho ou um salvadorenho ter vontade de ouvir um samba. Aqui na América Central a influência norte-americana fala muito alto, e mina intercâmbios que poderiam ser mais frutíferos

Hoje todo mundo sabe que o colombiano Maluma teve o coração partido por alguém e foi consolado pelo carioca Nego do Borel, no hit do verão deste ano (ou seria a Despacito de 2018?), e que os quadris da colombiana Shakira não mentem, ainda que seu imposto de renda sim. Mas pouquíssima gente no Brasil conhece o gigantismo e a importância da banda argentina Soda Stereo para a história do rock latino. Ou sabe que o músico uruguaio Jorge Drexler e o brasileiro Paulinho Moska compuseram várias canções ao longo de mais de 20 anos de amizade.

Ninguém que fale português brasileiro está interessado no fato de que existe uma cena de hip hop forte e cada vez mais atuante na América do Sul, com nomes femininos (e feministas) fortíssimos como o da chilena Ana Tijoux e o da portenha Miss Bolivia. Muito menos que entre o Caribe colombiano e a “Centroamerica” tem muito mais música interessante que o reggaeton, como o “sonido selvático” do Bomba Estereo e do Systema Solar , ou o calipso, a salsa mais tradicional e até boas bandas de rock aqui no Panamá, mesmo.

Não pude ver o Soda Stereo, a mítica banda de Gustavo Cerati (morto em 2014), Zeta Bosio e Charly Alberti ao vivo, mesmo tendo conhecido o trio entre idas e vindas a Buenos Aires há mais de 20 anos. No começo de 2018 pude ir ver “El Séptimo Día: no descansaré”,  espetáculo dos canadenses do Cirque du Soleil baseado na obra dos portenhos e a (falsa) sensação de estar num show do Soda me emocionou muito.

Foi quando descobri que vários brasileiros não sabiam que aquela música da banda brasiliense Capital Inicial( “À sua maneira”) é uma versão do maior hit do Soda, “De Música Ligera”. Fui ver os comentários no Youtube no vídeo do Capital: havia gente dizendo que isso era mentira! Em tempos de fake news, nem me surpreendi tanto.

Outros sucessos brasileiros dos anos 80 e 90 que eram versões em português de músicas em espanhol foram “Qué ves?”, dos Divididos, banda cultuada e outsider na terra de Eva Perón, e regravada no Brasil pela “two hit band” Tihuana (a outra canção famosa deles foi aquela do primeiro filme “Tropa de Elite”). “Loirinha Bombril”, dos Paralamas do Sucesso, era “Párate y Mira” dos skaleros Los Pericos. A versão canarinho é ótima, mas a original é ainda melhor.

Muita gente da minha faixa etária cresceu achando que música e literatura em espanhol eram coisa cafona. Achava que cultura latina eram as novelas “A Usurpadora”, “Mari Mar” e “Maria do Bairro” que passavam no canal do Sílvio Santos. Ninguém queria ir para Buenos Aires, Montevideo ou mesmo Cuba: chique mesmo era viajar para Miami ou para Orlando. O máximo que se permitia a classe média era uma escapadinha para algum canto mais em conta do Caribe, como a Isla Marguerita, que foi o boom dos anos 90 (hoje só de se ouvir falar em Venezuela muita gente sai correndo), ou Cartagena de Indias, na Colômbia.

O bom é que hoje em dia tem uma turma no Brasil promovendo shows de artistas latinos, fazendo festas onde os vallenatos, as cumbias e as misturas de ritmos dão o tom, e  outras pessoas descobrindo e lendo autores da língua de Cortázar, de Borges, de Benedetti, de Onetti, de García Márquez, de Rulfo e de tantos outros caras incríveis. Passou da hora de um novo descobrimento, o de nós mesmos, latinos e brasileiros, e de nossas culturas tão distantes e, ao mesmo tempo, tão próximas. Num cenário de bizarrice mundial essa imagem parece cada vez mais distante, mas vai que, né?

No player: Abarjáme (Illya Kuryaki & The Valderramas)

 

Redescobertas e reinvenções à vista

Desde que nos mudamos para a América Central eu tinha me animado a voltar a escrever aqui.  Mas aí a vida real me brecou, com uma lista interminável de afazeres.  Arrumar um lugar definitivo para morar e deixá-lo do nosso jeito (isso foi razoavelmente simples, já que a gente não tem frescura). Acostumar-se com o ritmo da cidade e ambientar-me da melhor forma (sigo nessa missão). Criar uma rotina em que eu pudesse me organizar para cuidar de mim, da minha família (de dois, mas família, sim) e da minha casa. Não dá para fazer tudo isso tão rapidamente e estou começando a achar que esse processo ainda vai levar um tempo. Mas cansa essa sensação de estar em férias prolongadas em um lugar que tem duas estações, verão e inferno, como bem comentou uma conhecida minha aqui. Mas que eu estou tentando, juro que tô.

O que posso dizer é que já me sinto menos esquisita aqui no Panamá, esse país que não escolhi, mas com o qual já me entendo, conheço melhor e aprendo a admirar em alguns aspectos (poucos, há que se dizer). Ou melhor, assumi a minha esquisitice e estou tentando vivê-la, fazendo as coisas do meu jeito e me reiventando dentro do que eu sou, acredito e sempre vivi. Percebi que adaptar-se não implica sempre em mudanças radicais. Dependendo da situação, apenas respeitar as diferenças (tem dias que é duro, viu) e aproveitar o que de melhor essa nova vida pode te oferecer já são passos fabulosos.

Minha querida ex-terapeuta em São Paulo costumava me dizer: “Menina, vai procurar a sua turma!”. Essa questão de não me encaixar em certos grupos sempre foi uma dificuldade para mim, e ainda o é. Terei 80 anos um dia (assim espero) e assim será. Apesar de adorar uma boa conversa e de interagir bastante de forma geral, quem me conhece bem sabe que sou mala e exigente (estou trabalhando a minha tolerância, de verdade, mas como todo mundo. Há pessoas cujo santo bate com o meu e outras não, e eu sinceramente não me esforço muito para me dar bem com quem não tem a ver comigo, de poucas amizades (algumas delas duradouras, de décadas), nunca gostei de turmão e não seria agora que isso mudaria.

Mas chega uma hora em que você tem de baixar a guarda, se abrir um pouco e dizer “E aí, universo, o que você tem para mim?” e aguardar o que vem. E talvez por já me conhecer bem, ele tem mandado algumas (três ou quatro) pessoas ótimas, de origens e perfis diferentes, mas gente interessante e com buscas parecidas às minhas.

E além de pessoas, tenho me voltado para coisas que me fazem bem e me deixam feliz, como a yoga, que já tinha praticado por sete anos no Brasil e sempre foi algo que, além de me oferecer uma boa dose de buena vibra , me ajudou muito em momentos difíceis do passado. Olhando pra trás, não me lembro bem o porquê de ter parado. Só quem faz sabe que a parte física é apenas uma pequena parte dos benefícios de incluí-la na sua rotina (parece frase de revista fitness boboca ou de yogui novato, mas é a real). E a melhor parte disso é que voltei a ter um sentimento de pertencimento, essa coisa que a gente tá sempre buscando, e que nesses primeiros meses aqui só fugiu de mim.

Pouco a pouco estou retomando os meus treinos de corrida, que já faço há quase quatro anos. Correr aqui nos primeiros meses foi impossível pela combinação terrível de insônia (que não me deixava energia para fazer muita coisa) e intolerância ao calor (taí uma característica panamenha que odeio, esse clima Miami feat Manaus). Agora ainda tá bem difícil, já que agora é a estação de chuvas (já falei que aqui só tem duas, né?) e as temperaturas são ainda mais altas que na seca.

Também estou empenhada nas aulas de espanhol voltadas para redação e discussão de artigos, contos e textos jornalísticos, o que tem sido bem interessante. Muito tempo usando o idioma que há anos domino apenas em viagens deu uma enferrujada na minha fluência. Como todas as aulas são pautadas pelos acontecimentos e notícias da semana, meu professor, que também dá aulas na Universidade do Panamá (a menos indecente do país, onde a educação é bem ruim), tem sido um excelente facilitador para que eu entenda o jeito de ser e pensar do povo daqui, além de conhecer um pouco do contexto histórico e social local.

O texto e “el habla” têm melhorado bastante e vêm ganhando mais textura, o que tem me deixado bem satisfeita. O que não dá mesmo é para falar com o acento daqui, que é bem diferente do castelhano que eu aprendi há mais de 20 anos: os panamenhos falam pra dentro e usam um monte de anglicismos, culpa dos norte-americanos que ocuparam o país por décadas. Mas essa é a parte mais divertida e interessante de se morar em um país novo, perceber estas nuances.

Entre tanta coisa animadora, uma ainda me entristece e preocupa: não ando trabalhando muito, e o trabalho sempre foi uma das partes mais importantes da minha vida. Com a crise no Brasil cada vez mais forte, os frilas estão minguando (tá todo frilando agora, então, a concorrência também aumentou bastante). E eu sempre amei o que eu faço, mesmo o jornalismo tendo se tornado algo bem diferente quando eu escolhi me dedicar a essa profissão hoje tão desvalorizada, lá no começo dos anos 90. Para arrematar, aqui no Panamá eu não posso exercê-la, por que jornalista é uma das mais de 27 ocupações reservadas por lei aos panamenhos (sim, existe isso aqui e é bem estranho).

Tenho estudado outras possibilidades, feito outros planos. Pensando em reinvenções possíveis a médio e longo prazo. Mas o trabalho mental segue, a curiosidade, o interesse em aprender e a vontade de fazer coisas novas também. O mantra da minha vida desde a adolescência e que hoje ainda sigo é que cada dia traz um aprendizado novo, por mais simples que ele possa parecer. Nem que seja tolerar a “salsa cristã” (sim, isso existe e vai ser tema de algum post em outro momento) do Uber sem ter vontade de matar o motorista.

No play: Elsa (Los Destellos)

 

A febre latina que nasceu no Panamá

Não foram só mirabolantes esquemas de lavagem de dinheiro que nasceram aqui neste pequeno país entre o Pacífico e o Atlântico. O Panamá também foi um dos berços do reggaeton, esse gênero musical que grudou na orelha de todo mundo com (a insuportável) Despacito, no começo deste ano. Soube disso por acaso outro dia (nem lembro bem o porquê, sinceramente), mas fui atrás de outras informações sobre essa que hoje é vista como uma das maiores expressões da música latina no mundo (sério, mesmo). Comercialmente esse troço é um fenômeno, mas tem coisa bem mais interessante por aí, conceitual ou artisticamente falando…

Nos anos 80 houve uma febre de reggae aqui no país, estimulada em grande parte pelos imigrantes jamaicanos e de outras ilhas do Caribe que vivem no Panamá desde a época da construção do canal. De início as letras eram cantadas em inglês, mas depois naturalmente passaram ao espanhol. A partir daí esse novo gênero foi transformando-se, mesclando-se com outros ritmos da Jamaica e Caribe, como o dancehall, o dub e o calipso, o que rendeu uma mistura boa, como em La Chica de Ojos Café, do cantor Renato (que é um dos maiores ídolos dos reggaeiros daqui), que teve várias regravações em outros países. 

Enquanto isso, em Puerto Rico, outro país culturalmente influenciado pelos norte-americanos e que já tinha uma tradição em produzir sucessos musicais gigantes (vide Menudo – sim, eu gostava – e seu integrante mais famoso, Ricky Martin), o rap cantado em espanhol crescia, com nomes como Vico C. O interessante é que nesse início as letras falavam menos sobre a vida difícil nas periferias, a violência e os conflitos sociais, e mais de dores de amor e questões familiares.

Até que nos anos 90 artistas como Nando Boom e El General, no Panamá, e Pocho Man, em Puerto Rico ficaram bem conhecidos fora de seus países, com um protótipo do que musicalmente é hoje o reggaeton, com essa base de reggae e rap combinada a batidas eletrônicas de outros sonidos caribenhos. O ritmo era ótimo e dançante, mas as letras já davam pistas do que seria o perreo (algo como putaria na tradução livre para o português) de hoje: muito sexo, toneladas de machismo, festa e ostentação de todos os tipos.

Naquela época, no Brasil chegou pouca coisa. Lembro de ouvir no começo da minha adolescência uma versão em português dessa música do El General, no finado Show da Xuxa. Detalhe: a letra já era uma perreada só: falava de fulana que é gostosa, de como ela rebolava, aquela coisa de sempre. Mas nos anos 90 ninguém tava nem aí para sexualização infantil, e JAMAIS nos esqueçamos que no programa da Rainha dos Baixinhos teve até isso aqui.  😛

De volta para o reggaeton: o nome do novo gênero apareceu lá em Puerto Rico, criado não se sabe bem como e nem por quem, no final dos 90. O sucesso foi tanto na América Latina, na Espanha e nas comunidades latinas nos Estados Unidos que logo o olho de alguns produtores cresceu para essa potencial fábrica de dinheiro. Pegaram o original (que era mais divertido), encheram de autotune, acrescentaram uma atitude hip hop fake e produziram em clipes cheios de bundas e peitos em escala industrial. Voilà, nascia um fenômeno de vendas.

Nos 2000 e pouco começaram a pulular nomes como Daddy Yankee (o cara de Gasolina e segunda voz da chatíssima Despacito) e Don Omar, ambos porto-riquenhos. Hoje o gênero já tem um bom número de artistas de outros países e de estilos bem diferentes uns dos outros (alguns com músicas bem melhores que o hit do verão passado), como os colombianos Maluma e J Balvin, o venezuelano Danny Ocean, os cubanos do Gente de Zona, o norte-americano Nicky Jam e até o português Lucenzo, mas os boricuas (como são conhecidos os porto-riquenhos) dominam a cena reggaetonera com vários cavalos de vantagem.

Se tivesse que fazer um contraponto com a música brasileira, diria que o reggaeton é primo em primeiro grau do sertanejo universitário, que partiu da música caipira de raiz (saudades, Pena Branca e Xavantinho!) e adicionou pitadas de axé e de vanerão gaúcho ao pop, com letras que só falam de balada, bebedeira e ostentar carrão . O reggaeton é tal e qual, assim como outros gêneros não muito elogiosos à condição feminina em outros continentes. Seguimos mal com isso, meninas. 

O mais bizarro desta apuração foi descobrir que essa música aqui é uma das músicas mais sampleadas em língua espanhola, até hoje. E que foi lançada em 1989 pelo panamenho El General, mesmo ano em que o Panamá, governado por um militar desta mesma patente (Manuel Noriega, recém-falecido), era invadido pelos Estados Unidos e passava por um dos períodos mais negros de sua história.

No player: Hambre (Gepe)

Além do canal e dos papers

Faz quinze dias que nos mudamos para Ciudad de Panamá, esse lugar que ainda não consegui decifrar totalmente ainda e sabia bem pouco a respeito – do Canal que liga o Oceano Pacífico ao Atlântico, de que foi dominada até o fim dos anos 90 pelos norte-americanos e da história dos Panama’s Papers. A mudança surgiu na nossa vida quando em novembro meu marido recebeu uma proposta de vir trabalhar aqui, pela mesma empresa onde já estava há quatro anos, lá no Brasil. Depois de algum estranhamento, horas de conversa e uma cerca preparação psicológica resolvemos vir.

Num primeiro momento a cidade me pareceu uma mistura de Hong Kong, Salvador e Praia Grande, com aquele toquezinho do caos paulistano. Tem um monte de arranha-céus, um calor do cão, uma orla bonita (mas sem praia e com um mar longe de ser cristalino), shoppings às pencas e um trânsito inacreditável. Felizmente nem tudo é terrível: tem um centro antigo lindo e cheio de vida, bons lugares pra correr e fazer outras atividades ao ar livre e ótimos restaurantes, alguns bem mais caros do que deveriam.

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A vista do nosso apartamento provisório (com pouco trânsito, no final de semana) e a porção Hong Kong da cidade, ao fundo.

Estou trabalhando arduamente para entender um pouco daqui e achar o meu lugar em meio a tudo isso. E já que vamos morar neste pequeno país da América Central por pelo menos dois anos, tentaremos fazer do abacaxi uma piña colada, para ficar ao gosto local (ainda que esse drinque seja doce demais pra mim, que prefiro os negronis e os gin tônicas). Para encurtar a história e compartilhar um pouco do que tenho visto e observado, fiz uma lista de impressões que tive desses primeiros dias.

 

Carros, carros pra todo lado

Sabe cidade pensada para pessoas? Então, Panamá não é uma dessas. Para ter uma ideia, nós estamos morando provisoriamente em uma região nobre, a Avenida Balboa, que margeia a orla e é uma das artérias da cidade. O trânsito nela é inacreditável, comparável com o da Avenida Rebouças, em São Paulo. E faz dias que não durmo direito por conta do barulho de caminhões e ônibus, que passam buzinando dia e noite.

Bicicleta? Esquece. Só dá para usá-la em algumas duas ou três ciclovias da cidade, todas para fins recreativos, não para transporte. Não vi uma alminha corajosa pedalando pelas redondezas durante a semana para ir ao trabalho ou escola. Transporte público? Cobre uma pequena área (ônibus e metrô) e é bem ruim, segundo ouvi de alguns locais. Nada muito diferente do que já conhecia de outras cidades latino-americanas, infelizmente.

Há também alguns ônibus escolares norte-americanos antigos, que foram reaproveitados como uma forma de transporte mais barata, os Diablos Rojos. São tipo lotações, que custam baratinho e têm um cobrador que para em cada ponto gritando o destino, enquanto o motorista buzina loucamente. Aliás, se eu já achava essa mania de buzinar um negócio insuportável antes, agora minha reação diante disso é dez vezes pior.

 

Andar a pé, essa aventura

Temos andado bastante aqui, tanto na orla quanto nas ruas mais pra dentro do bairro em que estamos. E é engraçado ver que a maior parte das pessoas que faz isso é formada por estrangeiros. Os panamenhos parecem não apreciar muito a ideia de caminhar, a não ser pra fazer exercício. Tá, a temperatura média é de 30 graus e eu particularmente não lido bem com calor, mas estamos falando de cinco quadras até o mercado e não de atravessar a cidade.

Um ponto que dificulta esse hábito é que em várias ruas simplesmente não há calçada! E quando elas existem são supermal cuidadas, cheias de buracos e ondulações, daquelas que exigem bota de caminhada para atravessá-las sem ganhar uma torção braba no pé. E, para tornar o simples ato de dar uma voltinha um pouco mais tenso, as ruas são pouquíssimo iluminadas à noite. Uma lição de respeito à mobilidade, só que não.

 

Resta uma esperança

Nem tudo é tão horrível quando se fala em espaço público. Há a Cinta Costeira, espécie de calçadão multiuso com ciclovia, pista de corrida, quadras de esportes, aparelhos de ginástica e espaços para o povo que gosta de bailar salsa ou outros ritmos nem tão latinos assim. A pista de corrida e caminhada tem 3,5 km e liga a Punta Paitilla, que é um bairro cheio de prédios altíssimos, ao Mercado de Mariscos, onde se pode comprar ou comer ali mesmo peixe e frutos do mar fresquinhos a preços justos.

Estamos procurando um apartamento definitivo aqui na região, para podermos aproveitar esse pequeno respiro urbanístico em um lugar em que, sem firulas, os carros são bem mais importantes que as gentes. Eu sei, São Paulo também é assim, mas estamos bastante mais adiantados neste aspecto do que a turma daqui. Acredite!

 

Formalidade e maquiagem

Mesmo sendo uma cidade à beira-mar, os seres que aqui nasceram e habitam olham feio para quem usa o combo short-chinelo para andar na rua. Em alguns lugares nem tão finos assim os caras podem se negar a atender ou mesmo barrar a entrada de pessoas trajando bermudas e havaianas. Eu sempre me lembro de ver senhores entrando no banco usando sunga, lá no Rio, e penso que jamais essa cena aconteceria aqui. Até porque aqui não tem praia, apesar do mar (à la Praia Grande) logo ali.

Os homens preferem vestir calça social e camisa, e as mulheres, como tantas outras, não deixam o salto alto de lado nunca. E elas ainda usam maquiagem pesada com essa temperatura “maravilhosa”. E não é só no estilo que os panamenhos são formais: aqueles com quem tive contato são muito fechados, sérios e não fazem questão alguma de serem simpáticos. Acho que são assim mais por desconfiança que por serem mala gente, mesmo. Se você insistir na conversa e tiver paciência eles se abrem um pouco mais.

 

Tudo americanizado

Você vai ao supermercado e lá a maior parte dos produtos é importada dos Estados Unidos, o que pra mim tem cheiro de Síndrome de Estocolmo, uma vez que os norte-americanos ocuparam parte do país desde o começo do século XX e controlaram o Canal do Panamá até 1999. Mas psicologia à parte, o país é pequeno e a produção de alimentos também, de forma que muita coisa vem de fora.

Na rua, todo mundo dirige SUV’s gringas – segundo nos disseram, aqui carros altos são obrigatórios, por conta da estação das chuvas, quando grande parte da cidade é alagada. Aham. Os caras são mesmo chegados em um american way of life. Não que muitos brasileiros também não o sejam, sabemos bem disso. Mas esse foi um aspecto daqui que mais que me chamou a atenção e quero entender melhor com o passar do tempo.

 

Vida cultural #FAIL

Uma das coisas que mais me atormentou nos meses que antecederam a nossa mudança foi saber que a área cultural panamenha não era lá muito bem cuidada. Só há salas de cinemas em shoppings e a programação é igual em todos eles. Ouvi falar que uma das universidades tem um cineclube, mas não achei informação alguma a respeito. Há um festival de cinema em março e estou curiosa para conhecê-lo. Mas de qualquer forma, agradeço aos deuses da sala escura pela existência do Mubi e do Netflix. ❤

Outra coisa que me deixou bem chocada foram os “cadernos culturais” dos dois maiores jornais daqui, o La Prensa e o La Estrella. Falam de fofocas (gravidez da Beyoncé, esse tipo de coisa) e colunas sociais locais. As matérias que tratam de cinema ou literatura geralmente são de agência de notícias. Aliás, a qualidade do jornalismo daqui merece um post à parte.

Quanto a museus, a cidade tem dois, com programação e acervos fracos. Há também uma meia dúzia de centros culturais, galerias, uma microcena de música alternativa, e eventos como feirinhas de comida e bebida, além de pequenos festivais de música aqui e ali (ah, o hipsterismo global). Na semana passada fomos a um deles e lá vimos shows de algumas bandas locais interessantes, além dos ótimos colombianos do Los Aterciopelados. Foi divertido – apesar do show principal ter atrasado mais de 1h e ninguém falar nada – mas vamos seguir de olho no que acontece.

 

Antigo e em atividade

A parte mais antiga da cidade do Panamá é muito bonita, e o quê de Salvador que comentei lá no primeiro parágrafo se refere a ela. Pelo Casco Viejo, como é chamado aqui, muitos edifícios coloniais espanhóis e franceses lindos e bem conservados, vários bares, restaurantes e terrazas para quem tomar um drinque olhando a baía (a melhor vista da cidade, até agora). Ali ao lado, casas velhas e cortiços onde moram panamenhos que se mesclam aos turistas e aos expatriados (rótulo babaca, mas não consigo usar outro agora, desculpem-me) para aproveitar as noites na rua.

Na mesma região fica o maior teatro da cidade (que está fechado por reforma há anos), igrejas centenárias, a presidência da república e alguns centros culturais com pouquíssimas atividades. Ainda não conheço quase nada, mas me pareceu ser o lugar mais interessante da cidade.

 

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Uma das pracinhas do Casco Viejo panamenho.

 

Que cosa más bonitica!

Mesmo estranhando um pouco estou achando fofo o jeito de se falar daqui. No espanhol que eu estudei fala-se “pequenito”, como na Espanha, na Argentina, no Uruguai e no Chile. Em parte da América do Sul (Colômbia e Venezuela), na Central e no Caribe usa-se o “ico”no lugar do “ito”. E se tem uma coisa que eu sempre prestei muita atenção em qualquer lugar é sotaque: o daqui é bem diferente dos vizinhos venezuelanos e colombianos, se aproximando mais dos cubanos. Ah, e como sou meio Zelig , pode ser que daqui a um tempo esteja usando o “ico”também. 🙂

No player: La Pachanga (Vilma Palma y los Vampiros)

Mão perdida

Há uns meses eu não tenho conseguido escrever nada que não seja apenas trabalho. Em dois anos em uma empresa horrível onde desaprendi muita coisa  – e, de quebra, ainda perdi mais um naco da minha já tão curta fé na humanidade – muito do meu amor pelo texto foi se tornando uma relação desgastada e pobre. Servir como ghost writer de uma socialite cujo orgulho era dizer que não sabia português, mas que no inglês, dizia ela, “era incredible”, em meio a uma quantidade enorme de pessoas terríveis na sua assepção mais direta não me fez nada bem. E eu cansei bastante desta vida corporativa e de tudo

Como acredito muito que o melhor de uma fase da vida é superá-la, estou aqui, na luta novamente, tentando recuperar a mão que me falta na hora de retomar a escrita. Tem hora que bate um desespero e uma sensação de travamento absurda, mas vamos lá acabar com isso.

No player: Lust for Life (Iggy Pop)

Tá chegando!

Sem os medalhões de sempre e sem latinos – o que dá muito o que pensar sobre a produção – mas com nomes dos mais interessantes, a seleção oficial da próxima edição do Festival de Cannes deste ano está bem instigante. A programação, que foi anunciada hoje, tem Kore-Eda (Pais e Filhos), Sorrentino (A Grande Beleza), Moretti (dispensa apresentações) e Yorgos Lanthimos, o diretor grego que fez o ótimo e surpreendente Dente Canino, que ganhou o Un Certain Regard em 2009 e passou aqui na 38a Mostra. Tá, tem o novo do Woody fora de competição, mas isso não conta.

Ah, e o cartaz está lindo, lindo, homenageando a beleza misteriosa da sueca Ingrid Bergman. Vai ser um festival e tanto.

cannes2015

No player: Blue Veins (Racounteurs)